
Com 17,56 milhões de registros ativos, os Microempreendedores Individuais (MEIs) estão em forte expansão no Brasil. Em 2025, o país bateu recorde com abertura de 3,8 milhões de novos cadastros, uma alta de 22,1% em relação ao ano anterior, aponta o Panorama Econômico dos Pequenos Negócios do Sebrae. Esse contingente injeta mais de R$ 70 bilhões na economia por ano.
Enquanto a contenção de gastos públicos é uma medida defendida por analistas do mercado e lideranças do setor privado para garantir a sustentabilidade fiscal, outra ala de economistas alerta para os riscos de restrições significativas causarem retração na atividade econômica. A avaliação é que uma desidratação no poder de compra da população reduz a demanda no mercado interno, e quem mais vai sentir no bolso são os microempreendedores e pequenos negócios.
"Quando se fala em um ajuste fiscal drástico, isso significa puxar o freio de mão da economia brasileira. E quem perde renda primeiro são aqueles que dependem de uma economia que cresce e gera oportunidades", afirma a economista e professora da USP Laura Carvalho.
De acordo com o Panorama Econômico dos Pequenos Negócios do Sebrae, a maior parte dos MEIs está no setor de serviços (7,6 milhões). Logo depois, vêm o comércio (3,1 milhões) e a indústria (1,3 milhão). Na divisão por região, o Sudeste é o que soma o maior número de microempreendedores, com 6,8 milhões no total. O estado de São Paulo concentra a maioria dos trabalhadores dessa categoria (3,7 milhões), seguido de Minas Gerais (1,5 milhão) e Rio de Janeiro (1,3 milhão).
A economista explica que, num cenário de austeridade fiscal, quando o salário mínimo deixa de ter reajuste acima da inflação, trabalhadores de carteira assinada, aposentados e mesmo beneficiários de programas sociais vão enfrentar uma perda gradual do poder de compra. "As primeiras despesas a serem cortadas do orçamento familiar são as com cabeleireiro, manicure, pedidos de entrega de comida em casa, viagens por aplicativo, entre outros serviços", enfatiza Carvalho.
Um estudo dos economistas Clara Brenck e João Enrique Perez, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (FEA/USP), aponta que a renda de MEIs e trabalhadores informais é muito mais sensível às oscilações da economia do que a de quem tem carteira assinada. A partir da análise de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2015 a 2025, os pesquisadores identificaram que, para cada 1% de alta no PIB, em termos reais, a renda real de trabalhadores por conta própria (com e sem CNPJ) salta mais de 2%. Já o rendimento real das demais categorias registra alta bem mais modesta, de aproximadamente 0,9%.
O levantamento também simulou o impacto, em um período de dois anos, de um corte de benefícios sociais equivalente a R$ 4,5 bilhões já no primeiro mês. No sexto mês após a medida, a renda dos autônomos (com e sem CNPJ) sofre uma queda acumulada de -0,28%, um impacto cerca de 1,7 vezes maior do que a perda registrada pelos assalariados formais (-0,17%) no mesmo período. Ao longo do tempo, a perda de rendimento não se recupera e, ao final dos 24 meses, fica em -0,35% para quem trabalha por conta própria, contra -0,21% para os contratados com carteira assinada. "Isso significa que a vulnerabilidade dos MEIs e autônomos é quase duas vezes superior em relação ao trabalhador de carteira assinada", afirma Brenck.
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